domingo, 21 de agosto de 2011

O DIABO PARTIDO

Consta numa das tantas lendas que correm sobre o Diabo, lembrada pelo Padre Vieira, que aquele, saindo dos infernos, desabou-se por sobre a Europa. Partiu-se, porém, em pedaços que se espalharam por todos os lados. A cabeça, chifre e tudo, caiu na Espanha, daí os espanhóis terem os miolos quentes, os seus pés caprinos foram parar na França, daí lá gostarem de dançar e de se agitar, enquanto que o ventre satânico foi parar na Alemanha, o que explicava a gula daquele povo, sempre envolvido nos chucrutes, embeiçando-se atrás das partes do porco, cozidas ou assadas, tanto faz. E a língua do demo, indagou o Padre Vieira, onde teria ela ido parar? Supôs que em Portugal. Resultava disso que da Vila do Castelo à Vilamoura, do extremo norte ao extremo sul do reino, imperava aquela mania do falatório, da maledicência, do fuxico e da intriga. Tão prodigiosa era a fartura de palavras ruins em português que um tal de Drexelio, com elas, preparou um Abecedário dos Vícios da Língua. E o que encontraríamos se consultássemos, por exemplo, o verbete dedicado à letra " M", o. M. de Maranhão. Ora, respondeu o padre categórico: " M. de murmurar, M. de motejar, M. de maldizer, M. de malsinar, M. de mexerico", e , sobretudo, concluiu o grande pregador, " M. de mentir."

" A verdade que vos digo, é que no Maranhão não há verdade" Padre Vieira- Sermão da Quinta Dominga da Quaresma, S.Luís, 1654

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